quarta-feira, 4 de novembro de 2009

De.coração

Como uma casa, quando alugada, não te pertence. Então você passa muito tempo para conquistá-la e tê-la como propriedade. Não de possessão, até porque você morre e a casa fica. O tempo corre e a casa perdura. Com tantos acontecidos muitas paredes se desgastaram, sujaram. É hora, hora de tornar, incrementar essa paixão. Repintar, retocar, tornar a cor vermelha mais intensa. Sua casa ainda é a mesma, porém mais intensa, mais viva.

As cores mudaram, mas os móveis continuam os mesmos, velhos. Anos. Tempos. Alguns deles são preciosidades, intocáveis, outras coisas não. Redecorar. Mover. Mas nunca deixar.

Teoria totalmente aplicável a comodidade de um lar, ou a dois corações apaixonados. Dentro da mesma casa, o monótono surge, e como na simplicidade de uma casa, tudo se faz mais aconchegante, amável, com pequenos atos. Não precisando assim mudar-se para outro coração.

Entender. Viver. Discutir. Correr. Sentar. Beijar. Sorrir. Chorar. Silenciar. Mandar. Obedecer. Desobedecer. Mover. Tocar. Sentir. Deixar. Esquecer. Entender. Entender. Entender. Entender...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

GIKOVATE, Flávio. A Arte de Educar. POSITIVO. 71p.

"É o caso, por exemplo, da crítica que hoje podemos fazer ao egoísmo - incorretamente confundido como direito dos narcisistas; evidentemente, quem estiver bem consigo mesmo não precisará se apropriar do que não lhe pertence." (p.19)


Medo da Eternidade

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.

- Não acaba nunca, e pronto.

- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.

- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

- Acabou-se o docinho. E agora?

- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

(Escrito por Clarice Lispector)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O segredo

Escrevi em papel roxo, de caneta preta, o meu maior e mais pecaminoso segredo. Ao escrevê-lo, o joguei para o todo-sempre sem medo de que alguém queira desvendar as curvas das letras que falam e ditam as manhas do meu manual. Guardei num caderno velho e coloquei na estante de livros, como esperança de aquilo se tornar algo que eu diga para mim mesmo no futuro, e vá ao futuro relembrar o que realmente sinto, o que realmente sou.

Águas correntes me mostraram que guardá-lo na minha estante me lembrariam, no entanto, não mudaria nada. Depois de tanto ler, reler, resolvi depositar meu manual em um livro novo, na biblioteca pública. Tornei-me assim um anônimo, um manual aplicável a muitas pessoas e a poucos corações. Virei Antônio, Matheus, José, Lucas, Fábio, Lana, Tânia, Sara. Tornei-me um amor incomum, uma regra, uma lição, um movimento, um afeto.

Não sou poeta, nem sei amar. No segredo que desenhei, criei uma pedra. Não uma brita, mas um brilhante. Talvez saiba me entregar, porém meu segredo é ser escuro, e não visível, e no brilho da luz que tens que me dar, lerás o segredo. O segredo para me amar.

“Quanto sentimento pode um coração calar?”